grau alcoólico
«A cerveja é um produto natural e, não sendo difícil de fazer, é meticulosa e digna de respeito. Em Portugal, dada a predominância estrondosa dos vinhos (e até dos cocktails!), é desconsiderada como 'bejeca'; mata-sede ou adjunto humilde de um prego ou cachorro. Criou-se a ilusão de que há apenas uma mão-cheia de sítios onde a imperial sabe melhor. Em Lisboa, são as tulipas do Gambrinus ou as imperiais da Trindade ou da Portugália. No Porto, serão os príncipes do Gamba-Mar. Em Espanha, certas cañas...
A primeira coisa que o apreciador tem de aprender acerca da cerveja é que há uma razão para a cerveja saber melhor em certos sítios. Ao contrário do que rezam os mitos, a cerveja servida no Gambrinus é igualzinha àquela que se bebe morna, pelo dobro do preço, num copo de plástico, no Pavilhão Atlântico.
Não existem clientes privilegiados. Tanto a Unicer como a Central de Cervejas - bem assim como os outros fabricantes - fornecem a melhor qualidade possível a todos os estabelecimentos, por mais modestos ou augustos que sejam. (...)
O facto de a cerveja ser relativamente barata não deveria levar os consumidores a serem menos exigentes. Imagine-se o melhor vinho português. Nos bons estabelecimentos, é servido em copos apropriados, de bom vidro e formato adequado. Para mais, como são muitos a pedi-lo, abre-se uma garrafa de duas em duas horas.
Noutra casa, o mesmo vinho é servido em copos grossos e toscos, de forma cilíndrica de 'copo de três'. Para mais, como é pouco solicitado, uma garrafa dura quatro dias antes de ser substituída. Imagine-se que esse vinho, apesar de ser o melhor que temos, custava tuta e meia e que os consumidores, por conseguinte, não ligassem pevide às circunstâncias.
Pois é isso, exactamente, que acontece com a cerveja.»
Miguel Esteves Cardoso, Com os copos (Assírio & Alvim)

